Entre os milênios da Ucrânia I

Oportuno, este texto atemporal, escrito possivelmente no final dos anos 1970, traz uma interessante abordagem sobre as tradições de Páscoa

 

Por Lydia S. Dniprovey

 

É oportuno por tratar exatamente das tradições de Páscoa mantidas tanto pelos ucranianos em sua Pátria como pelos ucranianos ao redor do mundo. Foi escrito, muito possivelmente no final dos anos 1970, início dos anos 1980, época em que a Ucrânia ainda vivia sob a dominação soviética. Por essa razão, procuramos atualizar esse texto – que é atemporal – com algumas observações. Boa leitura!

 

A Páscoa na Ucrânia coincide com a primavera e é a data máxima da mais plena alegria do espírito cristão. Este antigo povo eslavo que era chamado pelos gregos e romanos de rutenos (da Rutênia), vive (comprovado pelos cientistas) no mínimo há 2.500 anos na mesma faixa de negra e fecunda terra, ao norte do Mar Negro, rota dos dourados trigais e berço de ouro dos genuínos cossacos da Ucrânia [козак] (kozak) [1]. A capital da Ucrânia, Kyiv, é a Cidade Mãe que deu origem à toda civilização eslava.

 

Os ovos de Páscoa, na Ucrânia [e é claro, também por ucranianos em outros países], são pintados com muito carinho e desvelo para o Glorioso Domingo de Páscoa. Há verdadeiras obras de arte na elaboração desses ovos (de aves), decorados à mão e chamados Pessankê. Esta arte milenar e exclusiva remonta aos tempos da era pré-cristão, quando eram decorados para a festa da primavera.

 

A religião cristã foi oficializada na Ucrânia no ano de 998 pelo Grão Príncipe Volodymyr [Володимир] [2], do então célebre e poderoso Principado de Kyiv. O príncipe ucraniano, como também a princesa Olga [Ольга] [3], sua avó, foram canonizados pela Igreja do rito bizantino. Entretanto, o cristianismo há muito já havia sido consagrado pelo povo devido à propagação dos irmãos cristianizadores dos povos eslavos: São Cirilo e São Metódio.

 

No domingo de Páscoa, os ucranianos, com suas blusas e camisas ricamente bordadas, levam à igreja os alimentos para serem abençoados pelos sacerdotes. Esses alimento são acondicionados em utensílios decorados à mão e colocados em bandejas ou cestos forrados com alvas toalhas de linho bordadas em ponto-de-cruz com motivos tipicamente ucranianos e pascais. No centro da cesta são colocados o Pão de Páscoa (Paska – veja a receita) e as pêssankas [à volta ficam os alimentos que fizeram parte do jejum da quaresma como queijo, manteiga, carne assada, linguiça, sal, ovos cozidos, além é claro, do tradicional khrin ou raiz forte] tudo contornado por frutas, flores, ervas aromáticas. Este é um inesquecível cenário de arte, beleza e originalidade. Simboliza a Graça dos Céus e as dádivas de uma terra em que cada centímetro está impregnado do sangue e da alma imortal de seus filhos. O ponto alto dessa celebração, a verdadeira somatória da magia da natureza e da consolidação da Fé, da Esperança e da Felicidade de viver desse povo abençoado é quando todos os fiéis se confraternizam proferindo as seguintes palavras:

– Cristo Ressuscitou! [Христос воскрес!] (Khrystos voskres!)

– Realmente Ressuscitou! [Воістину воскрес!] (Voistynu voskres!)

(In: https://en.wikipedia.org/wiki/Paschal_greeting)

 

 

Na Ucrânia atual (soviética) não é permitida a prática de cultos religiosos ou tradicionalistas. E aos ucranianos não é permitido possuir ou pintar sequer um ovo de Páscoa pois, aparentemente inofensivas, essas pequenas obras de arte constituem uma séria ameaça ao tão proclamado, supostamente todo poderosos, regime dos opressores e usurpadores dos bens alheios. Apenas um ovo, desveladamente decorado, simboliza a Imortalidade do Espírito Cristão, vinculado ao Imperecível Nacionalismo do Povo Ucraniano.

 

E ao alvorecer de mais uma Páscoa, os ucranianos radicados em todos os recantos do mundo reafirmam os seus votos de Fé diante da Gloriosa Ressurreição do Redentor, dizendo:

– Cristo Ressuscitou! [Христос воскрес!]

– Ressuscitará também a Ucrânia! [Воскресне Україна!]

(In: http://cun.org.ua/2015/hristos-voskres-voskresne-ukrayina/)

 

Atualmente estas tradições são cultivadas no exterior: Alemanha, França, Inglaterra, Bélgica, Holanda, Canadá (onde o terceiro idioma é o ucraniano), Estados Unidos, Austrália, Brasil e Argentina. E em menor número nos mais longínquos confins da terra. Onde existe um pequeno grupo de famílias ucranianas é erguida impreterivelmente uma igreja, com muito amor a Deus, na esperança do porvir.

 

Nota.

O cristianismo, tímida e morosamente, conseguiu chegar a Moscou 500 anos após ter sido oficializado em Kyiv e sofreu desfavoráveis alterações ambientais coligadas às durezas sócio-raciais. Enquanto o cristianismo florescia na velha Ucrânia, os habitantes da então paupérrima e asiático-européia aldeia de madeira chamada Moscóvia simplesmente massacravam os catequizadores que até lá se aventurava.

 

Entretanto, as enciclopédias russas e até as mundiais descrevem a pitoresca e lendária cristianização de Kyiv como se esta pertencesse a Moscou e vice-versa.

 

Entre muitas propositais e bem planejadas alterações da história russa, a mais grave é a profanação deste antigo e histórico templo: o então livre (até 1667) e independente império de Kyiv, capital da Ucrânia, onde irrompeu e perpetuou-se a maior cultura eslava de todos os tempos.

 

 

Texto sem data

[1] [козак] (kozak), palavra derivada da denominação turca kazak, que significa homem livre; in http://www.encyclopediaofukraine.com/display.asp?linkpath=pages%5CC%5CO%5CCossacks.htm

 

[2] [Володимир], também chamado de Volodymyr, o Grande; seu nome pode ser grafado ainda de outras formas: Valdamar, Volodimer, Vladimir; in http://www.encyclopediaofukraine.com/display.asp?linkpath=pages%5CV%5CO%5CVolodymyrtheGreat.htm

 

[3] [Ольга], Olha, que recebeu o nome cristão de Elena; in http://www.encyclopediaofukraine.com/display.asp?linkpath=pages%5CO%5CL%5COlhaPrincess.htm

 

Um comentário em “Entre os milênios da Ucrânia I

  • 04/10/2017 em 15:31
    Permalink

    Há poucos anos atrás tivemos a oportunidade de conhecer a Ucrânia dos nossos avós e a oportunidade de sentir o mesmo vento, aromas, alma e muito mais, que nem todos os anos de comunismo conseguiram apagar.
    A emoção de quem traz no sangue desde as histórias de infância até a guerra, puderam reforçar o patriotismo único e imbatível, a maior de todas as emoções, o melhor de todos os momentos, ser ucraniana!!!

Deixe uma resposta